Alexandra Leitão: “Recebo e-mails sobre o meu aspeto físico. É violento”

Alexandra Leitão: “Recebo e-mails sobre o meu aspeto físico. É violento”
Alexandra Leitão, líder parlamentar do PS, conversa com a jornalista Catarina Marques Rodrigues no programa "Dona da Casa"

Foi Secretária de Estado da Educação durante quatro anos, Ministra da Modernização do Estado e da Administração Pública durante dois e, atualmente, é uma das mulheres com mais destaque na política portuguesa enquanto Líder Parlamentar do Partido Socialista. Alexandra Leitão encontra no Direito e na Política duas das suas grandes paixões e crê ser “uma das mulheres (do Partido Socialista) com condições” para ser primeira-ministra de Portugal.

A Mulher na Política

Deputada de um partido com mais de 50 anos e sem nenhuma mulher líder durante a sua história, a primeira entrevistada do Podcast Dona da Casa (Antena 3) fala-nos sobre os progressos que os partidos têm feito no sentido de dar espaço às mulheres para os cargos superiores e destaca a importância das quotas para a construção deste caminho: “Queria chamar a atenção que, há já uns anos, o PS tem paridade no secretariado nacional, nos órgãos internos, e o último governo do PS tinha paridade de homens e mulheres. Portanto, o partido tem feito a sua parte, mas, claro, pode sempre fazer-se mais. Na verdade, até há pouco tempo, havia tão poucas mulheres na vida política, que era normal que não emergisse nenhuma que fosse candidata a secretária-geral do PS. Agora, as coisas mudaram – muito por força das quotas e da lei da paridade, o que fez toda a diferença na Assembleia da República”, declara em entrevista a Catarina Marques Rodrigues.

Relativamente à falta de emancipação das mulheres na política, Alexandra Leitão destaca algumas razões, começando por mencionar a dificuldade da mulher em conciliar a vida profissional com a vida pessoal: “(a falta de emergência de mulheres) tem que ver com muitas coisas, tão simples algumas como, por exemplo, o facto de as reuniões partidárias começarem às 18h/19h e acabarem, muitas vezes, à meia noite. Torna-se difícil para as mulheres, principalmente depois de serem mães, porque querem estar com os seus filhos. (…) Eu acho que a maternidade é uma das questões que explica muita da ausência das mulheres da vida pública, não só da política”, afirma.

Para além das adversidades logísticas e das questões da maternidade, a entrevistada destaca a dificuldade que as mulheres ainda encontram em estarem interactivamente em alguns contextos, comparativamente aos homens: “Nós olhamos e temos uma percentagem muito pequena de mulheres Presidentes da Câmara, por exemplo, porque ainda há alguns ambientes em que é mais difícil estar-se interativamente como mulher do que como homem. Isto advém do tipo de conversas, o tipo de assunto, do horário, do contexto… eu sinto isso. Até o facto de as mulheres, quando estão na vida pública, serem muitas vezes julgadas e comentadas por coisas muito diferentes daquelas que seriam os homens, como a forma como se arranjam ou se vestem”, confessa a deputada.

O Aspeto Físico e os E-mails de Ódio

Perante a forma como o aspeto físico ainda é, tantas vezes, utilizado contra a mulher na sociedade atual, Alexandra Leitão conta-nos a sua experiência pessoal: “Já me perguntaram se eu achava que o meu aspeto físico me prejudicava publicamente e politicamente e eu dei duas respostas: por um lado, os políticos devem ser a representação das pessoas todas e as pessoas são todas diferentes entre si e, portanto, os políticos não devem ser standardizados; por outro lado, o mais importante na resposta é saber se perguntavam isso a um homem. No caso das mulheres, o problema não é só se são bonitas ou feias ou se têm o peso certo, é também como se arranjam e apresentam e isso é mais exigente para as mulheres”, revela.

A deputada confidencia, ainda, receber e-mails de ódio cujo teor é exclusivamente sobre a sua aparência física: “Quando eu tenho participações no plenário, acontece com alguma frequência receber no correio do cidadão (mensagens que as pessoas conseguem enviar através do site da assembleia) e-mails anónimos em que o seu teor é todo ele sobre o meu aspeto físico: desde o cabelo, à maquilhagem, à voz, à roupa, ao peso e é bastante violento. Aposto que se eu fosse um homem até podiam mandar hate mail, mas seguramente que não seriam sobre o seu aspeto físico”, considera.

O Feminismo na Política

Face à presença cada vez mais marcante, no Parlamento, de figuras que se afirmam como anti-feministas, como é o caso da deputada Rita Matias, do partido Chega, Alexandra Leitão é questionada sobre se é mais importante, atualmente, a representação pública e política de uma mulher jovem ou se os ideais anti-feminismo são mais fortes que essa mesma representação, a que respondeu: “Nós somos homens, mulheres, não binários, o que for; somos de várias nacionalidades, mas somos pessoas que valemos por nós próprias, independentemente do grupo em que nos colocamos. Eu acho importante que uma mulher tenha um cargo importante, tenha relevo e notoriedade pública. Não acho indiferente que o cabeça de lista do meu partido seja uma mulher ou um homem, porque de facto é preciso que haja mais mulheres para que o ambiente se 'feminize' e, a partir daí, muitas das limitações que decorrem do ambiente masculino vão também elas amenizando. Mas nós valemos muito pelas nossas ideias e se há uma mulher que tem um discurso claramente anti-igualdade de género, naturalmente que eu prefiro um homem que defenda a igualdade de género”.

A queda dos Partidos de Esquerda e a Emergência de Partidos de Direita no Ocidente

A par da presença notória de figuras políticas que se afirmam como anti-feministas, está também a emergência evidente de partidos de direita e extrema-direita em vários países do Ocidente, incluindo Portugal, e a aparente queda dos partidos de esquerda. Apesar das causas para este acontecimento ainda não terem sido totalmente apuradas, a deputada do PS salienta a tentativa de retrocesso de um conjunto de direitos das minorias que já estavam adquiridos: “Acho que estamos a assistir a um momento de alguma tentativa de retrocesso de um conjunto de direitos que estavam dados como adquiridos não só das mulheres, mas também das minorias. Não é por acaso que foi agora e não noutro momento que eclodiram movimentos profundamente conservadores, muito anti-progressistas, que eu não tenho dúvidas que sempre existiram, mas que decidiram aparecer agora. No mundo ocidental, tem emergido em grande força um conjunto de ideias de que (certos partidos de esquerda) estão mais preocupados com o emigrante do que com nacional, com o direito LGBT do que com o trabalhador que não ganha o que tem que ganhar ao fim do mês. Eu considero que há espaço para todas essas questões num programa eleitoral ou numa linha programática de um partido. Um partido deve atender aos direitos de todos”, declara.

Quanto a este tema, Alexandra acrescenta, ainda: “Acho que há esse risco (de alguns cidadãos não se identificarem com as questões das minorias, quebrando a ligação à esquerda) e acho que a esquerda deve esforçar-se por demonstrar que defende os direitos de todos, mas creio que é uma questão multifatorial, esse estudo ainda não está totalmente feito. Pode ser uma das causas (o foco nas minorias), mas não é claramente a única”, defende.

Episódio no Parlamento entre Alexandra Leitão e Aguiar-Branco

No passado mês de maio, ocorreu na Assembleia da República um debate setorial no âmbito da construção do novo aeroporto. Na sua intervenção, André Ventura, líder do partido Chega, disse: “O aeroporto de Istambul foi construído e operacionalizado em cinco anos, os turcos não são propriamente conhecidos por ser o povo mais trabalhador do mundo”. No seguimento desta intervenção, e sem qualquer advertência por parte do Presidente da Assembleia da República, Alexandra Leitão decide questionar Aguiar-Branco: "Se uma determinada bancada disser que uma determinada raça ou etnia é mais burra ou mais preguiçosa, também pode?", perguntou. O Presidente da Assembleia da República respondeu: “No meu entender, pode. A liberdade de expressão está constitucionalmente consagrada. A avaliação do discurso político que seja feita aqui nesta casa será feita pelo povo em eleições”, referiu.

A propósito deste episódio, que teve grande cobertura mediática, Alexandra Leitão aproveita a conversa com Catarina Marques Rodrigues no Dona da Casa para esclarecer a sua posição: “Quando eu faço a pergunta, tem sido entendido que eu queria ou achava que o Sr. Presidente da Assembleia da República deveria cortar a palavra ao Chega e não foi isso que eu quis dizer. (…) Não se trata de tirar a palavra, não se trata de cortar a liberdade de expressão. Trata-se de o Sr. Presidente da Assembleia da República entender que deve ou não utilizar um mecanismo que o regimento da Assembleia da República lhe dá que é o de advertir um deputado que exceda aquilo que é considerado urbano, ofensa, insulto. E aquilo que eu achava e continuo a achar que o Sr. Presidente da Assembleia da República devia ter feito, era fazer essa advertência, não era tirar a palavra. Portanto, o plano não é o da liberdade de expressão, salvo melhor opinião, o plano é o da urbanidade e da forma como devem decorrer os trabalhos parlamentares”, afirma.

Numa conversa que aborda temas tão atuais e importantes, Alexandra Leitão partilha a sua história enquanto mulher na política em Portugal, como é que lida com os altos e baixos da carreira, a possibilidade de vir a ser primeira-ministra e a paixão por dar aulas de Direito.

"Sou uma das mulheres" do PS "que tem condições para ser Primeira-ministra"

Em Portugal só houve uma mulher a assumir o cargo de Primeira-ministra. Foi Maria de Lourdes Pintassilgo, durante 6 meses, por iniciativa presidencial do Presidente Ramalho Eanes. Questionada sobre a possibilidade de poder ser a primeira a resultar de uma eleição legislativa, Alexandra Leitão diz: "As mulheres em regra são mais recatadas em afirmar essas ambições do que os homens. Uma das razões pelas quais os homens chegam mais aos lugares, aos cargos, também é porque se chegam mais à frente afirmando ‘eu quero’. E fazem bem. As mulheres tendem mais a 'ah não sei, vamos ver, logo se vê e tal'. Eu diria que gostaria muito que houvesse uma primeira-ministra mulher em Portugal, gostava que essa primeira-ministra fosse do meu partido, naturalmente, que eu quero que o meu partido governe e acho que sou uma das algumas dentro do partido que tem essas condições, sim", respondeu. Este excerto foi noticiado em vários órgãos de comunicação social.

Alexandra Leitão com olhos no futuro: “Sou uma das mulheres do PS com condições” para ser primeira-ministra
A líder parlamentar do PS deu uma entrevista à Antena 3 em que diz que as mulheres têm mais problemas em falar das suas ambições e em que admite que gostaria de ver uma mulher primeira-ministra do PS. Questionada sobre a sua vontade, diz que tem “condições” para um dia poder sê-lo
Alexandra Leitão considera que tem condições para ser primeira-ministra
<p><span>A líder parlamentar do PS, que gostava de ver uma mulher como primeira-ministra, considera que é “uma das algumas” mulheres no partido que tem condições para o ser. As declarações foram proferidas numa entrevista à Antena 3.</span></p>
Alexandra Leitão diz ter “condições” para ser primeira-ministra no futuro
“Acho que sou uma das algumas mulheres dentro do partido que têm essas condições”, defende a líder da bancada do PS, que diz existir um “grupo razoável de mulheres que podem começar a emergir”.

"Dona da Casa" - São artistas, deputadas, atletas, empresárias e líderes. Têm destaque público, são donas da sua vida e provam que se pode ter vários papéis. Catarina Marques Rodrigues guia conversas sem filtros com mulheres, mas não só. Disponível em antena3.rtp.pt, RTP Play, Spotify e Apple Podcasts.